Espaço de reflexões, devaneios, pensamento solto... A criação desse blog vem confrontar a velocidade insana que se apropria de nossos dias e faz com que muitas vezes esqueçamos de dirigir o olhar às coisas que estão nas entrelinhas do cotidiano.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Um pouco de volubilidade

"Ao entrar no território que tem Eutrópia como capital, o viajante não vê uma mas muitas cidades, todas do mesmo tamanho e não dessemelhantes entre si, espalhadas por um vasto e ondulado planalto. Eutrópia não é apenas uma dessas cidades mas todas juntas; somente uma é habitada, as outras são desertas; e isso se dá por turnos. Explico de que maneira. No dia em que os habitantes de Eutrópia se sentem acometidos pelo tédio e ninguém mais suporta o próprio trabalho, os parentes, a casa e a rua, os débitos, as pessoas que devem cumprimentar ou que os cumprimentam, nesse momento todos os cidadãos decidem deslocar-se para a cidade vizinha que está ali à espera, vazia e como se fosse nova, onde cada um escolhe um outro trabalho, uma outra mulher, verá outras paisagens ao abrir as janelas, passará as noites com outros passa-tempos, amizades, impropérios. Assim as suas vidas se renovam de mudança em mudança, através de cidades que pela exposição ou pela pendência ou pelos cursos de água ou pelos ventos apresentam-se com alguma diferença entre si. Uma vez que a sua sociedade é organizada sem grandes diferenças de riqueza ou de autoridade, as passagens de uma função para a outra ocorrem quase sem atritos; a variedade é assegurada pelas múltiplas incumbências, tantas que no espaço de uma vida raramente retornam para um trabalho que já lhes pertenceu. Deste modo a cidade repete uma vida idêntica deslocando-se para cima e para baixo em seu tabuleiro vazio. Os habitantes voltam a recitar as mesmas cenas com atores diferentes, contam as mesmas anedotas com diferentes combinações de palavras; escancaram as bocas alternadamente com bocejos iguais. Única entre todas as cidades do império, Eutrópia permanece idêntica a si mesma. Mercúrio, deus dos volúveis, patrono da cidade, cumpriu esse ambíguo milagre." (As Cidades e As trocas - As Cidades Invisíveis - Italo Calvino)

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Quartos fechados

"Aqui, onde há uma região poderosa em torno de mim, sobre a qual avançam os ventos vindos do mar, aqui sinto que nunca um homem poderá dar uma resposta às perguntas e aos sentimentos que têm vida no fundo do seu ser. Pois mesmo os melhores erram nas palavras quando elas devem significar o que há de mais leve e quase indizível. Apesar disso, acredito que o senhor não precise ficar sem uma solução, caso se atenha às coisas que lhe são semelhantes, nas quais meus olhos descansam agora. Se o senhor se ativer à natureza, ao que há de mais simples nela, às pequenas coisas que quase não vemos e que, de maneira imprevista, podem se tornar grandes e incomensuráveis; se o senhor tiver esse amor pelo ínfimo e procurar com toda simplicidade conquistar como um servidor a confiança do que parece pobre - então tudo se tornará mais fácil, pleno e de algum modo reconciliador para o senhor, talvez não no campo do entendimento, que fica para trás, espantado, mas em sua consciência mais íntima, no campo da vigília e do saber. (...) Peço-lhe que tente ter amor pelas próprias perguntas, como quartos fechados e como livros escritos em uma língua estrangeira. Não investigue agora as respostas que não lhe podem ser dadas, porque não poderia vivê-las. E é disto que se trata, de viver tudo. Viva agora as perguntas. Talvez passe gradativamente, em um belo dia, sem perceber, a viver as respostas." (Rilke - Cartas a um jovem poeta / Foto - Henry Cartier Bresson)


quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
















(Edward Hopper - Automat - Cafeteria Automática - 1927)



Tardes de Frank Sinatra

Tardes longas, mansas

frias lá fora
a fumaça do café aqui dentro


Tardes em que solidão

me é agradável e confortável

como uma velha amiga

Partilhamos

o aquecedor, o cão

a cadeira companheira da mesa de escrever

Ao fundo, notas de um amor

o momento acomoda uma canção

Ele diz: I fall in love too easily

Afinal...
















Quem é você, afinal?


Um pedido oculto em meu olhar?
Uma aptidão de meu pensar?
Quem sabe
um milagre a acontecer
Um sonho
a fenecer
Ah, eu só queria saber!
Se um esconderijo
a me abrigar
Ou um tempo estranho
que já vai passar...

sábado, 21 de novembro de 2009

A mais nobre obra

"Desejo ter uma lembrança de todos os seres que me são caros no mundo. Não é apenas a semelhança que é preciosa, nesses casos - mas a associação e a sensação de proximidade implicada na coisa [...] o fato de a própria sombra da pessoa que está ali ter sido fixada para sempre! É a própria santificação dos retratos, eu creio - e não é de modo algum monstruoso da minha parte dizer, por mais que meus irmãos protestem de forma tão veemente, que eu preferiria ter um tal monumento de uma pessoa que amei afetuosamente a ter a mais nobre obra de um artista jamais produzida."

(Elizabeth Barret, em carta a Mary Russel Mitford, 1843)